SABINE GOROVITZ

MOBILIDADES E LÍNGUAS EM CONTATO

Descrição

  O projeto tem como intuito questionar as mobilidades de populações e suas consequências linguísticas entre os dois lados de uma fronteira territorial/nacional.

  No caso específico dessa proposta, trata-se de avaliar essas dinâmicas populacionais e os contatos lingüísticos que delas surgem no território Brasileiro em relação às suas diversas e extensas fronteiras, notadamente com a Guiana francesa, zona ainda pouco estudada.

  Esse projeto se insere em eixos de pesquisa mais abrangentes: diversidade das sociedades, das línguas e dos saberes; ambientes migratórios; mobilidades e urbanização. Esse “ambiente migratório” abrange um panorama complexo de contatos de populações e de línguas que acarretam formas múltiplas de multilinguismo cujos efeitos (linguísticos, sociais e culturais) devem ser objeto de análise.

  Muito ainda resta a fazer no que concerne à descrição desses fenômenos e sua modelização nas áreas da sociolingüística e da socioantropologia. Como já foi ressaltado, o Brasil possui vastas fronteiras com diversos países, inclusive com a França (Guiana francesa). Inúmeras são portanto as situações de mobilidade transfronteiriça que têm como consequência os intercâmbios e contatos linguísticos.

  Além disso, o Brasil é um país que se abriu a diversas comunidades que chegaram por ondas mais ou menos intensas, em períodos distintos. Logo, o país é caracterizado por uma situação endêmica de bi ou de multilinguismo, nas suas principais cidades e em regiões variadas (aldeias indígenas, comunidades rurais isoladas com populações oriundas da Europa, inclusive alemãs e italianas, etc.).

  O projeto inscreve-se na continuidade de uma pesquisa desenvolvida em parceria com a França (laboratório CELIA, CNRS - Isabelle Léglise), intitulada “Transferência de códigos, políticas familiais e transmissão de línguas”, iniciada em 2007, no âmbito do programa “Dinâmica das circulações migratórias e mobilidades transfronteiriças entre a Guiana francesa, o Suriname, o Brasil, a Guiana inglesa e Haiti” (Edital “O Sul nos dias de hoje” - ANR-07-SUDS-006).

  Ela tem como duplo objetivo questionar a noção de fronteira e de espaços tranfronteiriços e a mobilidade em termos de integração lingüística. A abordagem privilegia a questão da língua e das práticas linguísticas enquanto objeto capaz de ilustrar e explicitar os processos de mobilidade e de contatos.

  Essa dupla abordagem tem como foco as relações entre as línguas, os locutores e suas representações. Concretamente, trata-se de trabalhar com famílias dos dois lados das diversas fronteiras, analisando as práticas linguísticas de seus membros: as interações nas diversas línguas de comunicação, o tipo de interferências produzidas entre uma língua e outra, e a representação que os locutores têm dessas línguas. Parte-se do pressuposto que essas produções representam demarcações simbólicas, lingüísticas e culturais (atos de identidade) a partir das quais é possível entender as lógicas que norteiam as migrações e as mobilidades em espaços cujo critério simplista de demarcação política não pode dar conta dos aspectos sociolingüísticos que singularizam esse contexto.

  O resultado dessa primeira pesquisa traduz-se por uma extensa corpora (dados lingüísticos em situação concreta de interação) que hoje é preciso explorar e analisar profundamente, o objetivo maior sendo o de estender essa metodologia de análise a outras situações de mobilidade e de contatos de língua.