SORAYA FERREIRA ALVES

AUDIODESCRIÇÃO PARA DEFICIENTES VISUAIS:

POR UM MODELO DE AUDIODESCRIÇÃO BRASILEIRO PARA A MÍDIA

Descrição

  Este projeto visa pesquisar melhores alternativas para a acessibilidade aos meios audiovisuais de deficientes visuais, mais especificamente a audiodescrição. A Audiodescrição (AD) pode ser definida como a técnica utilizada para tornar o teatro, o cinema, a TV, bem como obras de arte visuais, acessíveis para os cegos. Seria a tradução das imagens. A tradução é colocada entre os diálogos e não interfere nos efeitos musicais e sonoros. No caso de obras de arte (pintura, escultura), seria a descrição da composição das telas e as técnicas utilizadas. A AD ainda não é utilizada no Brasil, apesar de estar prevista pela portaria número 310 de 27/07 de 2006 (Diário Oficial da União de 28/07/2006). Enquanto essa implantação não acontece, faz-se necessário o desenvolvimento de pesquisas que investiguem padrões de audiodescrição para serem usados no país, pois há muitas reflexões a serem feitas na busca por conceitos adequados a este ato tradutório, bem como no desenvolvimento de padrões estéticos que partam do entendimento da audiodescrição como agente de interação sócio-cultural. Esse projeto se dedicará, mais especificamente, à pesquisa com a AD de produções para o cinema. A partir da leitura de bibliografia especializada e da consideração de resultados obtidos em pesquisas desenvolvidas em outras universidades brasileiras (UECE, UFMG, UFBA), será constituído um corpus com 6 filmes de curta-metragem de autores brasilienses a fim de se propor padrões de audiodescrição que atendam à comunidade cega. A escolha levou em conta a disponibilidade dos cineastas em cederem os direitos para a tradução por AD do filme e sua exibição para grupos de deficientes visuais, bem como a oportunidade de consultoria com os autores. A pesquisa será feita junto a sujeitos cegos adultos e adolescentes ligados a entidades de assistência ao cego de Brasília, como o Centro de Ensino Especial para o Deficiente Visual – CEE e o Clube do Ledor, e terá como base Estudos de Tradução Audiovisual, Semiótica e Linguagem Cinematográfica.

 

Introdução


  Diferentemente da legenda fechada para surdos, a tradução audiovisual para cegos e pessoas de baixa visão, ou audiodescrição (AD), ainda não foi introduzida no Brasil. A AD pode ser definida como a técnica utilizada para tornar o teatro, o cinema, a TV, bem como obras de arte visuais, acessíveis aos cegos. Trata-se de uma narração adicional que, no caso do cinema, da TV e do teatro, descreve a ação, a linguagem corporal, as expressões faciais, os cenários, os figurinos. Seria a tradução das imagens. A tradução é colocada entre os diálogos e não interfere nos efeitos musicais e sonoros. (BENECKE, 2004; KOSLOFF, 1998). No caso de obras de arte (pintura, escultura), seria a descrição da composição das telas, das figuras representadas pelas esculturas e as técnicas utilizadas. Originou-se nos Estados Unidos nos anos 70 e já é bastante utilizada nesse país, como no Reino Unido, França, Alemanha, Espanha e Japão. Em alguns desses países já existem regulamentações que obrigam as emissoras de TV a audiodescreverem seus programas e filmes: EUA (50 horas por mês); Reino Unido (atualmente 4% da programação, até o final de 2010, 10%).

  A AD ainda não é utilizada no Brasil, apesar de estar prevista pela portaria número 310 de 27/07 de 2006 (Diário Oficial da União de 28/07/2006). Essa portaria complementa o decreto nº 5296 de 2/12/2004 que trata da acessibilidade. Por meio de sucessivos adiamentos (portarias 403, 466 e 661) pelo Ministério das Comunicações, o recurso ainda não está disponibilizado nas televisões abertas brasileiras. O cinema e o teatro também não apresentam sessões acessíveis, nem mesmo museus têm visitas guiadas para cegos.

  Enquanto essa implantação não acontece, faz-se necessário o desenvolvimento de pesquisas que investiguem padrões de audiodescrição para serem usados no país. Há muitas reflexões a serem feitas na busca por conceitos adequados a este ato tradutório, bem como no desenvolvimento de padrões estéticos que partam do entendimento da audiodescrição como agente de interação sócio-cultural e que atenda aos cegos de nosso país.

  Segundo Snyder (2005), o processo de AD é bastante simples. A descrição é escrita por um grupo de pessoas, sendo uma delas cega. Nem todos os programas podem ser traduzidos por audiodescrição, já que alguns não se adéquam a esse tipo de tradução como noticiários, programas de auditório e alguns filmes. O script é preparado, tentando descobrir os níveis de detalhes exigidos pelo público alvo. O som da tradução não deve se sobrepor ao do filme para não prejudicar o entendimento da audiodescrição.

  Já existem projetos sobre AD ambientados em diferentes universidades brasileiras, como o da Universidade Federal da Bahia - UFBA, coordenado pela Prof. Dra. Eliana Paes Cardoso Franco (TRADTERM, 2007). A professora realizou uma pesquisa de recepção com cegos baianos, utilizando um curtametragem de um cineasta da Bahia, Adler Kibe Paz, intitulado “Pênalti”. Dois grupos de cegos viram diferentes versões do filme, com e sem AD. O grupo com AD teve desempenho bastante superior ao outro, sugerindo que deficientes visuais necessitam realmente de tradução para poderem assistir a produções audiovisuais.

  Na Universidade Estadual do Ceará – UECE, também estão sendo desenvolvidas pesquisas para garantir acessibilidade audiovisual aos cegos cearenses. Em 2007, em uma atividade do novo currículo de Letras chamado de “Projeto Especial” (PE), foram trabalhadas traduções para cegos e surdos. Os alunos produziram pequenos vídeos legendados e audiodescritos apresentados em congressos internacionais. Em 2008, dentro do Projeto Televisão Para Cegos: Acessibilidade Através Da Audiodescrição, coordenado pela Profª. Dra. Vera Lúcia Santiago Araújo, e do qual participei ativamente (antes de ser aprovada em concurso na UnB e entrar em exercício em outubro de 2009), o filme Mutum (2007), de Sandra Kogut, foi audiodescrito e entregue à diretora para futura produção. A narração foi feita por mim e os resultados dessa prática foram apresentados no Congresso da Abralin em março de 2009 e publicados nos anais do evento (Araújo & Alves, 2009). Além disso, a Profª. Dra. Vera Lúcia Santiago Araújo tem um projeto de cooperação acadêmica (PROCAD), junto à UECE, com a UFMG e financiado pela CAPES, bem como um projeto de produção de DVDs acessíveis financiados pelo BNB.

  Vale ressaltar que, durante o período em que participei como membro docente da equipe do projeto da Prof.ª Vera Araújo, realizei o documentário Ver para ouvir. Ouvir para ver, juntamente com a aluna Sara Benvenuto, o qual mostra a pesquisa sobre legendagem para surdos e audiodescrição para deficientes visuais, realizada na UECE de 2006 a 2009. Tal documentário foi legendado e audiodescrito por nossa equipe e exibido na Mostra Acessível do Cine Ceará 2009 e na Mostra DVD Acessível BNB 2009. Também faz parte do corpus da pesquisa atual da Profª. Vera Araújo curtametragem de minha autoria, realizado com alunos da UECE, Uma Vela para Dario (baseado na obra de Dalton Trevisan e que participou da mostra de curtas-metragem do Cine Ceará 2009) que também será audiodescrito e apresentado à comunidade de deficientes visuais cearense.

  No momento, pretende-se implementar a pesquisa em Audiodescrição na UnB, junto ao Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução – LET, a fim de contribuir para o futuro da acessibilidade à mídia em nosso país.

 

Revisão de Literatura


  A AD é uma modalidade de tradução audiovisual definida como a técnica utilizada para tornar o teatro, o cinema, a TV e as artes visuais acessíveis para deficientes visuais. A pesquisa em AD está incluída nos Estudos de Tradução porque adotamos a definição de Jakobson (1995) que reconhece três tipos de tradução: a interlinguística ou tradução propriamente dita (texto de partida e chegada em línguas diferentes); a intralingüística ou reformulação (texto de partida e chegada na mesma língua); e a intersemiótica ou transmutação (texto de partida e chegada em meios semióticos diferentes, do visual para o verbal e vice-versa). Mais especificamente, a AD seria então uma tradução intersemiótica porque transmuta as imagens em palavras.

  A noção da AD como tradução é de fundamental importância para o seu reconhecimento como trabalho intelectual, pois vai muito além do que a descrição de informações percebidas pela visão. Questões técnicas, lingüísticas e fílmicas precisam ser observadas para que se possa realizar a audiodescrição. As respostas a essas questões dependem do gênero da obra a ser audiodescrita. No caso do presente projeto, iremos trabalhar a linguagem cinematográfica, pois nos propomos a audiodescrever curtas-metragens.

  Um audiodescritor competente precisa estar preparado para lidar com problemas, tais como: 1. Que informação priorizar? 2. A sobreposição entre o áudio do filme e da AD é sempre não recomendável? 3. Como deve ser a narração? Semelhante a uma contação de histórias? Ou neutra, sem nenhuma demonstração de emoção? 4. Quais as características do texto da AD? Semelhante a um texto literário? Com descrições detalhadas dos personagens, do enredo e da ação? Ou deve somente privilegiar a ação?

  A pesquisa em AD ainda é muito incipiente no Brasil, e os resultados publicados ainda são escassos, apesar de esforços das Universidades já mencionadas. Um artigo elucidativo sobre a pesquisa em AD, de autoria de Franco (2007), relata os resultados obtidos em pesquisa coordenada por ela. Segundo a autora, a pesquisa passou por várias etapas: visita às instituições que atendem deficientes visuais na Bahia, seleção dos participantes, seleção do filme, AD do filme, elaboração de questionários sobre o filme e análise dos dados. Foram selecionados dois grupos de 10 sujeitos, a maioria com baixa visão e apenas um deles cego congênito. O filme selecionado foi “Pênalti”, curta-metragem com duração de 8 minutos, “filmado em Salvador, no mais puro “baianês”, tema sobre futebol, uma pitada de sexo, e o mais importante, imagens extremamente significativas para a compreensão do enredo”. (Franco, 2007: 180)

  A gravação da AD foi feita em um estúdio na cidade de Salvador. O questionário foi elaborado para ser respondido pelos dois grupos, aqueles que viram o filme com e sem AD. As perguntas referentes à imagem –“Por que os corpos de alguns personagens estão em azul?” – só foram respondidas pelos que assistiram ao curta com a tradução. Os resultados indicaram que o grupo com AD entendeu melhor o filme, visto que o nível de acertos desse grupo foi de 95% contra 40% do grupo que viu o filme sem AD.

  A autora ressalta que seus resultados não são conclusivos, mas que já sinalizam para os benefícios que a AD traz para a acessibilidade audiovisual. Ressalta que muitas pesquisas precisam ser feitas antes que se chegue a uma conclusão definitiva sobre qual modelo de AD seria ideal para os deficientes visuais brasileiros.

  Outro artigo, de autoria de Araújo e Alves (2009) relata as estratégias utilizadas para a realização da audiodescrição do filme Mutum (2007), de Sandra Kogut. No referido artigo, as autoras explicitam a necessidade de se estudar e entender a linguagem cinematográfica para a audiodescrição, pois os movimentos de câmera, os planos utilizados, formam um conjunto que corrobora para o significado da imagem e assim para a escolha dos termos a serem usados na audiodescrição. Afirmam, também, que no caso de uma adaptação (Mutum é baseado em uma história do livro Campo Geral, de Guimarães Rosa), o caminho inverso, ou seja, a utilização do texto literário para auxiliar a AD, não é vantajosa, pois, como no caso da obra específica, a linguagem poética utilizada não corresponde à linguagem adequada à AD. Recorrer-se à obra fonte, porém, pode auxiliar na compreensão dos recursos cinematográficos utilizados na adaptação e, assim, na AD, conforme exemplos explicitados no artigo.

  Há, porém, publicações internacionais relevantes, como TRANSLATING TODAY MAGAZINE. Volume 4, Julho de 2005; TRANS. Revista de Tradutologia. Málaga: Universidad de Málaga, número II, 2007; os livros Traducción y acessibilidad. Subtitulación para sordos y audiodescripción para ciegos: nuevas modalidades de traducción audiovisual. Frankfurt:Peter Lang, 2007 organizado por Catalina Jimenez Hurtado; Topics in Audiovisual Translation. Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2004,  Editado por Pilar Orero; The Didactics of Audiovisual Tranlation. Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2008, Editado por Jorge Diaz Cintas, entre outros, que discutem a acessibilidade aos meios audiovisuais.

  A grande maioria dos artigos sobre AD versam sobre o lado profissional da prática tradutória da AD, relatando experiências e exemplos de audiodescrições, ou seja, são normalmente tradutores que dividem suas experiências com o público. Um grupo de pesquisadoras espanholas, porém, (Jimenez Hurtado, Payá e Ballester Casado) analisou um corpus de 325 filmes audiodescritos em diversas línguas (inglês, francês, espanhol, inglês e alemão). Cada uma delas examinou aspectos diferentes relacionados à AD. Jimenez Hurtado (2007) investigou as palavras e a estrutura frasal mais freqüentes na descrição dos elementos visuais não verbais, tais como personagens e suas características, o ambiente, os estados emocionais, as ações. Utilizando um software de análise textual chamado de Wordsmith Tools, a autora derrubou dois mitos dentro da prática da audiodescrição. O primeiro foi sobre o uso das palavras “olhe” e “veja” (Jimenez Hurtado, 2007:74), consideradas politicamente incorretas em muitas diretrizes de AD. Ao procurar pelas palavras mais freqüentes, deparou-se justamente com as duas. Depois das preposições e dos artigos, elas foram as mais utilizadas pelos audiodescritores de diversos países. O segundo mito derrubado foi o de que não se deve colocar sua interpretação na AD. Devemos saber que ao fazermos uma narrativa sempre deixamos nossas impressões e nossa visão de mundo. O audiodescritor precisa tomar cuidado na escolha de sua adjetivação para não colocar suas inferências no texto, principalmente aquelas cruciais para o entendimento do filme. Não faz parte do trabalho do audiodescritor facilitar a leitura do filme. Ele precisa traduzir as imagens para propiciar ao deficiente visual a oportunidade de fazer a própria interpretação.

  Payá (Jimenez Hurtado, 2007: 88-89) compara dois tipos de roteiro: o do filme e o da AD. A autora faz uma análise do filme Pulp Fiction de Quentin Tarantino (1994) e demonstra que os dois roteiros são diferentes, porque ambos possuem objetivos distintos mesmo quando focalizam a mesma cena.

  Ballester Casado (Jimenez Hurtado, 2007: 137) aponta estratégias para caracterizar os personagens de uma AD: A caracterização dos personagens se centra em seus atributos físicos (idade, etnia e aspecto) e também no seu vestuário, expressões faciais e linguagem corporal. Além disso, são descritos os estados emocionais, mentais e físicos dos personagens. Segundo a autora, os personagens são descritos à medida que aparecem na tela. Ela frisa também que essa descrição deve ser feita ao longo do filme, já que, muitas vezes, os tempos sem fala que podem ser preenchidos com a AD são pequenos.

  Joel Snyder (2008) descreve suas experiências como audiodescritor e como instrutor de audiodescritores, e afirma que a audiodescrição pode ser considerada uma arte literária, um tipo de poesia, uma vez que proporciona uma versão verbal do visual e que é feita usando-se de palavras sucintas, vívidas, imaginativas.

  Bourne e Hurtado (2008), ao realizarem uma análise contrastiva dos roteiros do filme The Hours produzidos tendo como parâmetros os modelos espanhol e inglês,  identificam diferenças relevantes, pois, o primeiro demonstra relativa escassez de detalhes, dando preferência à descrição das ações; utiliza vocabulário simples e frases coordenadas curtas, enquanto que o segundo dá descrições detalhadas do cenário e das características físicas dos personagens; utiliza uma gama variada de adjetivos; prefere frases mais longas e vocabulário mais rebuscado. É exatamente nas diferenças dos dois parâmetros que esta pesquisa irá se fundamentar ao produzir os roteiros de AD de seu corpus.


Justificativa


  A Portaria nº 310 de 27/06/2006 estabelece um cronograma para que as emissoras “com concessão para explorar o serviço de radiodifusão de sons e imagens e pelas pessoas jurídicas que detenham autorização para explorar o serviço de retransmissão de televisão” forneçam aos seus expectadores serviços de AD e legendagem fechada para surdos (LFS).

  Os programas com AD e LFS devem ser exibidos nos horários e prazos a seguir:

1.  No mínimo, uma hora, na programação veiculada no horário compreendido entre 8 (oito) e 14 (quatorze) horas, e uma hora na programação veiculada no horário compreendido entre 20 (vinte) e 2 (duas) horas, dentro do prazo de 24 (vinte e quatro) meses, contado a partir da data de publicação desta Norma;

2. No mínimo, duas horas, na programação veiculada no horário compreendido entre 8 (oito) e 14 (quatorze) horas, e duas horas na programação veiculada no horário compreendido entre 18 (dezoito) e 2 (duas) horas, dentro do prazo de 36 (trinta e seis) meses, contado a partir da data de publicação desta Norma;

3. No mínimo, três horas, na programação veiculada no horário compreendido entre 8 (oito) e 14 (quatorze) horas, e três horas na programação veiculada no horário compreendido entre 18 (dezoito) e 2 (duas) horas, dentro do prazo de 48 (quarenta e oito) meses, contado a partir da data de publicação desta Norma;

4. No mínimo, quatro horas, na programação veiculada no horário compreendido entre 8 (oito) e 14 (quatorze) horas, e quatro horas na programação veiculada no horário compreendido entre 18 (dezoito) e 2 (duas) horas, dentro do prazo de 60 (sessenta) meses, contado a partir da data de publicação desta Norma;

5. No mínimo, seis horas, na programação veiculada no horário compreendido entre 6 (seis) e 14 (quatorze) horas, e seis horas na programação veiculada no horário compreendido entre 18 (dezoito) e 2 (duas) horas, dentro do prazo de 72 (setenta e dois) meses, contado a partir da data de publicação desta Norma;

6. No mínimo, dezesseis horas, na programação veiculada no horário compreendido entre 6 (seis) e 2 (duas) horas, dentro do prazo de 94 (noventa e quatro) meses, contado a partir da data de publicação desta Norma;

7. No mínimo, vinte horas, na programação diária total, dentro do prazo de 106 (cento e seis) meses, contado a partir da data de publicação desta Norma;

8. A totalidade da programação diária, dentro do prazo de 132 (cento e trinta e dois) meses, contado a partir da data de publicação desta Norma.

  A norma entrou em vigor no dia 27/06/2008 para os surdos, já que o Ministério das Comunicações adiou a implantação da AD. Dentre os motivos alegados, está a falta de profissionais para atender às emissoras de TV afiliadas da ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV). Por essa razão, é de fundamental importância que se faça pesquisa na área. A universidade deve ser a instituição responsável tanto pela formação dos profissionais quanto pela produção de pesquisas para que o modelo de AD a ser usado no nosso país seja adequado.

  Como vimos a UECE, a UFBA e a UFMG já estão desenvolvendo pesquisas na área, mas ainda estão no início. Daí a relevância dessa pesquisa, pois poderá contribuir para a criação de um modelo de AD brasileiro, fazendo com que a UnB participe, assim, da inclusão dos deficientes visuais brasileiros no público que assiste a produções audiovisuais tais como o teatro, a TV, o DVD, as exposições de arte.

  Qualquer pessoa deve poder dispor e utilizar com conforto e segurança os mais diversos ambientes, serviços e produtos – sejam eles físicos ou virtuais – em igualdade de condições. Essa preocupação rege o trabalho de todos os implicados nessa pesquisa.  A sociedade da informação, novo modelo no qual vivemos hoje, segrega aqueles que, por diversos motivos, não têm acesso à dita informação. A acessibilidade é um conceito amplo, mas pode ser entendida pela idéia de que indivíduos com características e habilidades diversas requerem modelos e intervenções que estejam de acordo com essas diversidades. Assim, pretendemos colaborar para a acessibilidade de deficientes visuais às mais diversas manifestações da sociedade da informação, que vem privilegiando as formas visuais.

 

Problematização


  A pesquisa visa responder as seguintes perguntas:


1) Qual seria o melhor modelo de AD para o público deficiente visual, a AD detalhada ou mais sucinta, que privilegia a ação?

2) Os modelos descritos pelo grupo espanhol (Hurtado, 2007) quanto à caracterização de personagens, especificação de emoções e detalhamento dos recursos cinematográficos atenderiam às necessidades do público deficiente visual testado?


Objetivos Geral(is) e/ou Específico(s)

  Geral:

Propor um modelo de AD que atenda aos deficientes visuais pesquisados;


  Específicos:

Elaborar roteiros de audiodescrição em diferentes modelos, o inglês e o espanhol;

Gravar roteiros de audiodescrição;

Fazer pesquisa de recepção de modelos diferentes de AD com deficientes visuais;

Elaborar roteiros de audiodescrição que atendam às recomendações dos sujeitos deficientes visuais pesquisados;

Formar audiodescritores comprometidos com a acessibilidade.


Materiais e Métodos

  Primeiramente, passaremos pela fase de leitura de bibliografia, o que, na verdade, já está sendo feito pelo candidato a bolsista, pelo voluntário e por outros membros do grupo de pesquisa que se formou a partir do interesse de alunos do Departamento de Língua Estrangeiras e Tradução – LET/UnB.

  Estão sendo lidos, principalmente, artigos das seguintes publicações: TRANSLATING TODAY MAGAZINE. Volume 4, Julho de 2005; TRANS. Revista de Tradutologia. Málaga: Universidad de Málaga, número II, 2007; os livros Traducción y acessibilidad. Subtitulación para sordos y audiodescripción para ciegos: nuevas modalidades de traducción audiovisual. Frankfurt:Peter Lang, 2007 organizado por Catalina Jimenez Hurtado; Topics in Audiovisual Translation. Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2004,  Editado por Pilar Orero; The Didactics of Audiovisual Tranlation. Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2008, Editado por Jorge Diaz Cintas.

  A escolha do material a ser audiodescrito já foi feita.  Foram selecionados 6 filmes de curta-metragem de autores brasilienses para fazerem parte do corpus da pesquisa. A escolha levou em conta a disponibilidade dos cineastas em cederem os direitos para a tradução por AD do filme, bem como darem consultoria durante o processo de AD, reunindo-se com o grupo para falar sobre os filmes, os elementos da linguagem cinematográfica relevantes, etc.  Foram escolhidos curtas-metragens, pois as produções audiovisuais serão usadas na íntegra. Como serão testados modelos diferentes de AD, obras muito longas poderiam provocar cansaço e talvez desinteresse nos sujeitos, que, em sua maioria (como atestado pela supervisora do CEE, professora Susana Carvalho) não estão acostumados a assistir peças audiovisuais.  Os filmes escolhidos foram:


Feijão com arroz, de Daniela Marinho, 2009, Cor, 35 mm, 8 min, Livre

Dona Custódia, de Adriana de Andrade, 2007, Cor, 35 mm, 13 min, 12 anos

Calango!, de Alê Camargo, 2007, Cor , Digital , 7 min, Livre

As Fugitivas, de Otavio Chamorro, 2007, Cor, Digital, 13 min, 12 anos


  Os sujeitos da pesquisa também já foram selecionados: são deficientes visuais que freqüentam o CEE- Centro de Ensino Especial do Deficiente Visual e do Clube do Ledor, instituição ligada à primeira. A supervisora do CEE, Prof. Susana Carvalho já se comprometeu a formar os grupos de sujeitos para testas nossa AD. Serão formados dois grupos: um por sujeitos que nunca ou raramente têm acesso a obras audiovisuais, e outro por sujeitos que têm acesso freqüente ao audiovisual.

  As ADs serão feitas tendo a consultoria de um deficiente visual, nosso candidato a bolsista, que é deficiente visual,  tendo em mente que todos os autores consultados enfatizam que a presença de um deficiente visual na equipe é algo fundamental na produção de uma AD.

  Após as leituras e discussões, bem como a análise de obras que já possuam AD, partiremos ao processo de AD, o qual é realizado em quatro momentos: elaboração do script com o auxílio do software Subtitle Workshop (SW); produção do roteiro com todas as rubricas necessárias para a gravação; gravação em estúdio e mixagem da AD e do som original do filme. Apesar de ser um programa de legendagem o SW será utilizado porque permite a marcação do tempo de entrada e saída da AD, a duração dessas inserções e a visualização do filme. A diferença entre a legendagem e a AD reside no fato de que a primeira ocorre simultaneamente às falas, enquanto a segunda é colocada, preferencialmente, no intervalo delas. Com o software, o audiodescritor pode testar se em sua descrição não há sobreposição entre a AD e os diálogos do filme. Essa é uma diretriz fundamental, visto que a sobreposição pode prejudicar a recepção dos deficientes visuais.

  Depois de elaborada a lista de diálogos, começamos a preparação do roteiro que contém os seguintes elementos: tempos iniciais e finais (Time code reader – TCR – onde serão inseridas a AD), as descrições, as deixas (a última fala antes de entrar a AD) e as rubricas (as instruções para a locução). Todos esses elementos são importantes para auxiliar a gravação da voz. Um teste de voz é feito para escolher aquele ou aquela cuja voz mais se  adéqua à narração.

  Após a gravação, serão realizados os testes. 2 grupos formados de 5 deficientes visuais cada verão uma versão do mesmo filme: sem AD, com AD detalhada e com AD mais sucinta, privilegiando somente a ação. O mesmo procedimento será adotado com os 5 filmes. Depois da exibição de cada filme, serão gravados relatos retrospectivos em que os participantes falarão sobre o conteúdo do filme e as ADs.

  A última etapa se constituirá na análise desses relatos para verificarmos nossas hipóteses e a pergunta de pesquisa.

  Os seguintes equipamentos estão sendo providenciados pela chefia do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução para a formação de um estúdio voltado às necessidades da pesquisa:

Computador

Processador: Core 2 Quad Q8200 2.8Ghz

Memória RAM: 4GB DDR2

Memória Cache: 4MB

HD SATAII: 1 de 1TB (para arquivar os projetos de vídeo) + 1 de 500GB (para os programas)

Placa de vídeo: GeForce 9600 de 1GB.

Placa Fire Wire para conexão de câmera.

Gravadora: DVD RW

Monitor: LCD de 22”

Sistema operacional: Windows 7 Ultimate

Módulo Isolador ou Nobreak (ambos acima de 600w)

Softwares

Adobe Creative Suite CS4/Production Premium.

Nero 8.0

Câmera

Panasonic HDC-HS9

Tripé para a câmera

Som

Mesa de som: Behringer Xenyx 1222fx

Microfone: Condensador Beringer B-1

2 Fones de ouvido: Koss Porta Pro

Caixa de som: Behringer ativa

Periféricos

Caixa de som para PC: Subwoofer 2.1 de 1000W

Placa de captura de vídeo: Matrox MXO2 mini

Pedestal para partitura

Pedestal para microfone

Mouse óptico

Teclado

Cabos de áudio e vídeo


  Contamos também com o estúdio de gravação do Departamento de Comunicação Social da UnB.


Referências Bibliográficas


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TRANSLATING TODAY MAGAZINE. Volume 4, Julho de 2005.