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JUSTIFICATIVA

Em 1978, num breve apêndice às Atas do Colóquio sobre Literatura e Tradução (Lovaina, 1976), André Lefevere, um dos nomes mais importantes da pesquisa contemporânea em tradução, propôs que a designação “Estudos de Tradução” fosse adotada para a disciplina que “se ocupa dos problemas levantados pela produção e descrição de traduções” (Bassnett, 2003). Na tentativa de delinear o âmbito dessa disciplina, muitos teóricos, das diversas correntes críticas, lingüísticas, culturais e literárias, têm contribuído com a reflexão acerca dessa prática tão difundida, mas que carece de estudos sistemáticos.

Itamar Even-Zohar (1990), comparatista e teórico da tradução da Escola de Tel-Aviv, estuda a tradução como elemento componente do sistema literário de uma nação, situando-a dentro das relações que se estabelecem no âmbito dos polissistemas e das relações entre centro e periferia. Desde os anos 70, com a teoria dos polissistemas, e mais tarde, nos anos 80, com as pesquisas de Lefevere, os estudos da tradução deixaram a esfera de atuação meramente lingüística para voltar-se para o que gira em torno da produção literária, as margens da literatura, dentro de sua cadeia de relações com o político, o social, e o cultural; ou seja, nas lutas centro-periferia.

A tradução, no mundo contemporâneo, tem um papel crucial a desempenhar a fim de contribuir para a melhor compreensão de um mundo cada vez mais fragmentado, com fronteiras cada vez menos delimitadas, cruzadas por viagens ciberespaciais e territoriais, dando vazão ao grande movimento diaspórico da humanidade nos últimos tempos. Significativamente, Homi Bhabha (2005) usa o termo tradução não para caracterizar apenas uma transação entre textos e línguas, mas para descrever a condição do mundo contemporâneo que passa por um processo através do qual se demanda das culturas uma revisão de seus próprios valores, normas e sistemas de referência, tarefa difícil e conflituosa. Nessa linha, Stuart Hall (2003) defende a tradução como produto de cruzamentos e misturas culturais transportados pelo mundo, o que nos dá a idéia de tradução como prática dialógica, onde a diversidade deve ser contemplada e respeitada. Patrick Cattrysse (1997) também aponta aspectos sócio-culturais como relevantes ao processo de tradução, já que se pode considerar que cada cultura remete a um processo múltiplo de produção de subjetividade com seus universos cognitivos, discursivos, afetivos, sensíveis, tecnológicos que nos fazem pensar e sentir o mundo em função de um complexo sistema de representação. Cattrysse também aponta para o fato de que novos meios de comunicação trazem novos meios de processar mensagens e de traduzir e, assim, a pluralidade de culturas é traduzida em uma pluralidade de produtos.

A globalização não é um fenômeno surgido recentemente; o que é novo é a abrangência e a profundidade da penetração global das culturas. O multiliguismo no mundo midiático, digital, fruto da sociedade da informação, traz a premente necessidade do entendimento entre línguas e culturas, visando à passagem para uma sociedade do conhecimento e do entendimento, já que o conceito de multilinguismo designa, ao mesmo tempo, a capacidade de uma pessoa utilizar diversas línguas e a coexistência de comunidades linguísticas diferentes numa dada área geográfica (ou ciberespacial).

A língua “internacional” não satisfaz as necessidades das massas mundiais. Um paradigma de ecologia lingüística pressupõe que os falantes de línguas distintas tenham os mesmos direitos de comunicação, que o multilinguismo seja desejável e que seja digno de estímulo e mereça ser facilitado, e que a política lingüística deva ser pautada por princípios de igualdade e de direitos humanos.

Existem atualmente milhares de línguas. Algumas são vizinhas, irmãs, primas, outras totalmente estranhas. François Ost (2009), ao analisar o mito fundador das torres de Babel, entrevê, no lugar do “paradigma babeliano” que incessantemente alimentou as culturas, “a emergência de um paradigma da tradução, atribuído a um mundo que se pensa em termos de redes e comunicação” e que obriga a “pensar conjuntamente língua e tradução”, em domínios tão diversos como a interdisciplinaridade das ciências, o diálogo entre religiões, as filosofias, o direito internacional e os direitos nacionais, a sociedade civil e os seus representantes políticos etc.. Daí resulta a idéia de “hospitalidade linguística” que é a tradução – “escrita de corpo inteiro”, inventiva, que opera inicialmente dentro de cada língua, antes de trabalhar nas suas fronteiras, e que faz do “intraduzível”, visto como obstáculo, o seu “instrumento” e a sua condição de possibilidade, que constitui a melhor garantia da busca na tradução, do debate, da troca de opiniões, do “pensamento dialógico”.

O multilinguismo nas organizações governamentais, supranacionais e internacionais, bem como as políticas editoriais e tecnologias para a difusão de línguas e culturas faz com que a procura por tradutores qualificados cresça, pois este profissional contribui para o funcionamento das instituições das sociedades multilingues.

Em Brasília, os tradutores são peça-chave nas relações internacionais ao desenvolverem competências tradutórias e de intercomunicação com as diversas embaixadas e setores governamentais e a cultura de destino. De fato, o mercado de trabalho na capital do país é bastante ativo; aqui são realizadas inúmeras conferências internacionais, reuniões de cúpula com parceiros estrangeiros. Além disso, diversos setores do governo ou do Estado, ligados a organizações internacionais, necessitam de tradutores e/ou intérpretes. Por essa razão, algumas das maiores agências de tradução da capital foram criadas por egressos de nosso curso. De modo geral, Brasília precisa cada vez mais de tradutores experientes; a demanda é sempre crescente, daí a relevância que o curso de Letras-Tradução da Universidade de Brasília tem com relação ao atendimento a essa demanda, tanto no Distrito Federal, como no Brasil, já que este é um dos mais antigos cursos de graduação em tradução, criado em 1979, com habilitação em inglês e francês, e agora em espanhol, em 2008, com grande ênfase na formação da prática tradutória. Os egressos do Curso de Letras-Tradução da UnB ocupam vários postos de tradutores, secretários bilíngües e intérpretes em diversos órgãos do Estado, tais como o Senado e a Câmara Federais, os Correios, O Ministério de Ciências e Tecnologia, o Ministério da Saúde, o Itamaraty, as embaixadas, o IBICT, PNUD, OPAS, as agências internacionais de desenvolvimento de tecnologia, ONG’s, entre outros órgãos públicos e privados. Nossos ex-alunos prestam, ainda, serviços como tradutores autônomos, atendendo à imensa e crescente demanda por traduções acadêmicas (tradução de artigos científicos, documentos de interesse acadêmico, como fluxograma de cursos, ementas de disciplinas, usados em processos de transferência entre universidades conveniadas ou não com universidades brasileiras, em geral, e com a UnB, em traduções de obras literárias, entre outras).

Saliente-se que o Brasil tem cada vez mais um papel ativo na vida econômica e política internacional, com aumento de multinacionais brasileiras presentes em todos os continentes, além da demanda de representação política e diplomática em diferentes países e organismos internacionais, como o G 20, ONU, entre outros. Tal contexto exige grande número de tradutores intérpretes em línguas ocidentais, africanas e orientais.

Com o processo da mundialização, o contato entre povos, línguas e os acordos transnacionais, ampliaram-se de modo espantoso, para o bem e para mal. Durante algum tempo, pensou-se que a difusão do ensino de línguas estrangeiras dispensaria a necessidade do tradutor, o contato entre falantes de diferentes comunidades lingüísticas seria feito sem a mediação da tradução. Constatou-se, todavia, o contrário: a intensidade das trocas comerciais e culturais gerou uma demanda hors pair de trabalho, criando a necessidade de um número cada vez maior de profissionais competentes. Podemos pensar, então, a tradução como alternativa à condição contemporânea, como forma de solidariedade, fio que tece e retece relações, que deixa explícitas políticas e comportamentos, que promove o encontro entre línguas, culturas e indivíduos.

Com a implementação do REUNI na Universidade de Brasília, em 2008/2009, foi criada uma nova habilitação em Letras-Tradução Espanhol, no período noturno, visando complementar a formação acadêmica de profissionais já inseridos no mercado de trabalho, como também atender a uma demanda dos alunos da Licenciatura em Espanhol e à comunidade em geral. O curso foi implementado em 2009/1, com a realização do vestibular e o ingresso da primeira turma (cerca de 30 estudantes por entrada no vestibular). O Projeto REUNI disponibilizou 11 vagas de docentes para esse curso, para o preenchimento das quais foram realizadas as seleções públicas; 9 candidatos foram aprovados, e foram nomeados, até o momento, 7 professores. De forma a consolidar as outras duas habilitações, o REUNI atribuiu verba de 160 mil reais para a nova habilitação em espanhol e mais 80 mil reais para as outras duas habilitações em inglês e francês, o que permitiu a criação da Sala Ambiente de Pesquisa em Tradução e a aquisição de material permanente, como móveis, copiadoras, computadores de mesa e portáteis, scanners, e-boards, dentre outros equipamentos. Para a Sala Ambiente de Pesquisa, foi-nos designado um espaço, o Módulo 9, no CSS, antigo módulo do Instituto de Biologia. Este futuro laboratório é a realização de um projeto da área de tradução da UnB que permitirá o desenvolvimento da pesquisa em diversas áreas da tradução, como terminologia, audiodescrição, tradução assistida, legendagem e closed caption.

Nessa perspectiva, é de fundamental importância a criação de um Programa de Pós-Graduação em Estudos de Tradução na Universidade de Brasília (polo de pesquisas, já existente, na área de tradução em nível de graduação). Para os alunos oriundos das Licenciaturas e Bacharelado em Letras, Educação, História e Jornalismo, entre outros cursos, o novo programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (POSTRAD) tornou-se necessidade, pois pode responder tanto às tendências atuais da comunidade científico-acadêmica, quanto à demanda do mercado.

Devido à sua localização e influência na comunidade local e nacional, a UnB precisa extender sua contribuição a uma área tão necessária à sociedade. Por outro lado, Brasília é uma cidade para onde convergem pessoas do mundo todo. Alunos de várias partes do Brasil e do mundo passam pela UnB e têm o interesse de se capacitarem na área de Estudos de Tradução. Assim, o nosso programa revelará uma forte inserção nacional e internacional após sua implementação efetiva, contribuindo, também, para a consolidação dos Estudos de Tradução como área independente.

Vale ainda ressaltar que será desenvolvida pesquisa na área de modalidades de tradução audiovisual com vistas à acessibilidade à mídia de surdos e deficientes visuais. Essa pesquisa procura atender à demanda por pesquisa e por profissionais advinda de setores governamentais responsáveis pela obrigatoriedade da implementação de tal prática. Em outubro de 2008, duas semanas antes do prazo para que a audiodescrição fosse disponibilizada pelas emissoras de TV, a portaria 661 suspendeu indefinidamente sua obrigatoriedade com a alegação de não haver discussões suficientes para que se estabelecessem padrões para audiodescrição, nem profissionais qualificados no mercado. Será de grande importância para a comunidade acadêmica, bem como para a comunidade de deficientes audiovisuais, a inserção da UnB nessa pesquisa, juntamente com outras universidades, como UFMG, UFBA, UECE, e contribuir para que a acessibilidade aos meios de comunicação seja implantada e respeitada.

A integração de atividades de tradução com a Graduação já vem ocorrendo com naturalidade e assim deverá continuar no programa que está sendo proposto. Ela acontece, em primeiro lugar, porque os docentes que atuarão na Pós-Graduação já são professores atuantes na Graduação. Em segundo lugar, os docentes da área dos Estudos em Tradução, geralmente, ministram disciplinas dos Cursos de Licenciatura e Bacharelado em português, espanhol, francês, inglês e japonês. De modo específico, os docentes da área de tradução ministram disciplinas, nas três habilitações do Curso, como Prática da Tradução (300h), Prática da versão (300h), Teoria da Tradução (120h), Lexicografia, Laboratório de Texto (120h), entre outras. A maioria dos docentes também orienta trabalhos de Iniciação Científica e de Conclusão de Curso, que são direcionados para a área dos Estudos em Tradução; nossos alunos também realizam Estágios sob a supervisão de profissionais competentes na área, e também sob a supervisão dos docentes do curso. O TCC – Projeto Final de Curso (6 créditos) é de fundamental importância para o currículo, já que a defesa do Projeto vem sendo feita em bancas de avaliação com dois membros, além do orientador do projeto, desde 2001. Essa atividade é prioritária, uma vez que permitiu uma vasta experiência em orientação para os docentes do Curso de Letras-Tradução. São mais de 600 alunos formados desde 1979, e, portanto, mais de 600 TCCS, desde então.

Em face desse contexto, local, mas também nacional, é indispensável, hoje, para nós, docentes do Curso de Letras-Tradução e dos cursos de Letras – Línguas Estrangeiras Modernas e Literaturas da UnB – incentivarmos e promovermos a pesquisa científica em Tradução, de forma a atender à crescente demanda por uma formação aprofundada nas questões relativas à investigação em tradução, que vem sendo há tempos formulada pelos alunos egressos dos cursos de Letras da UnB. A qualificação como pesquisador na área de Estudos da Tradução é procurada por muitos profissionais dos cursos de Línguas Estrangeiras e Tradução e de Letras. Muitas vezes, graduados nessas áreas são levados a fazer a pós-graduação em áreas afins, como a Linguística, a Linguística Aplicada ou a Literatura, por não haver um curso específico na área de tradução. Por isso, há uma demanda reprimida, não só em Brasília, mas também na região Centro-Oeste, por uma formação em nível de pós-graduação, que inclua Mestrado e de Doutorado, na área dos Estudos da Tradução.

O viés eminentemente prático de nosso curso, no sentido da formação profissional do tradutor, vem, ao longo dos últimos anos, adquirindo paralelamente um caráter mais investigativo. Com efeito, nos últimos anos, foram realizados na UnB, e promovidas pelos docentes do curso de Letras – Tradução e do Departamento LET/IL/UnB, eventos e palestras importantes, orientação de trabalhos de iniciação científica, orientações de dissertações.

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